Qual a sua palavra?
Estou lendo “Comer, Rezar e Amar” de Elizabeth Gilbert. E esse foi um daqueles livros que se encaixou perfeitamente ao meu momento.
E teve uma passagem que eu achei muito legal, é meio grandinho o texto, mas vale e pena ler e pensar um pouco sobre isso:
“…Lembro-me de uma coisa que o marido a minha amiga Maria, Giulio, me disse certa vez. Estávamos sentados em um café ao ar livre, treinando nossa conversação, e ele me perguntou o que eu achava de Roma. Eu lhe disse que adorava a cidade, de verdade, mas que de alguma forma sabia que não era a minha cidade, que não era o lugar onde eu acabaria morando pelo reso da vida. Havia alguma coisa em Roma que não me pertencia, e eu não conseguia muito bem descobrir o que era. Bem na hora em estávamos falando, um lembrete visual muito útil passou pela calçada, era a típica romana – uma mulher de quarenta e poucos anos incrivilmente bem consevada, coberta de jóias, calçando saltos de 10 centímetros, uma saia bem justa com uma fenda comprida como um braço e um daqueles óculos escuros que mais parecem carros de corrida (e que provavelmente custam o mesmo preço). Ela passeava com seu cachorrinho de madame preso por uma coleira crevejada de pedras e a gola de pele de seu casaco justo parecia ter sido feita da pelagem de seu cachorrinho de madame anterior. Ela exalava uma aura inacreditavelmente glamorosa de: “Você vai olhar para mim, mas eu me recuso a olhar para você.” Era díficl imaginar que ela um dia, por dez minutos de sua vida que fosse, houvesse deixado de usar rímel. Essa mulher era o completo oposto de mim, que me visto em um estilo que minha irmã chama de “bicho-grilo vai à aula de ioga de pijama”.
Apontei aquela mulher para Giulio e falei:
- Está vendo, Giulio…aquilo é uma romana. Roma não pode ser a cidade dela e a minha cidade também. Só uma de nós realmente pertence a este lugar. E eu acho que nós dois sabemos quem é.
Giulio falou:
- Talvez você e Roma só tenham paravras diferentes.
- Como assim?
Ele disse:
- Você não sabe que o segredo para entender uma cidade e seus habitantes é aprender qual a palavra da rua?
Ele proseguiu explicando, em uma mistura de inglês, italiano e gestos que toda cidade tem uma única palavra que a define, que identifica a maioria das pessoas que mora ali. Se você pudesse ler o pensamentos das pessoas que passam por você nas ruas de qualquer cidade, descobriria que a maioria delas está tendo o mesmo pensamento. Qualquer que seja esse pensamento da maioria – essa é a palavra da cidade. E, se a sua palavra pessoal não combinar com a palavra da cidade, então ali não é realmente o seu lugar.
- Qual a palavra de Roma? – perguntei.
- Sexo – anunciou ele.
- Mas isso não é um estereótipo a respeito de Roma?
- Não.
- Mas com certeza existem algumas pessoas em Roma que pensam em outra coisa que não sexo?
Giulio iinsistiu:
- Não. Todas elas, o dia inteiro, só pensam em sexo.
- Até lá no Vaticano?
- Aí é diferente. O Vaticano não faz parte de Roma. Eles lá têm um mundo diferente. A palavras deles é Poder.
- Eu chutaria Fé.
- É Poder – repetiu ele – Acredite em mim. Mas a palavra de Roma é Sexo.
Se formos acreditar em Giulio, essa palavrinha – Sexo – calça as ruas que você pisa em Roma, jorra dos chafarizes daqui, enche o ar como o barulho do tráfego. Pensar nisso, vestir-se para isso, aceitar isso, recusar isso, fazer disso um espoerte e um jogo – é só o que todo mundo está fazendo. O que faria um pouco de sentido para explicar por que, por mais linda que seja a cidade, eu não sinto que Roma seja exatamente o meu lar. Não neste momento da minha vida. Porque Sexo não é minha palavra agora. Já foi, em outros momentos da minha vida, mas agora não é. Assim, a palavra de Roma, rodopiando pelas ruas, só faz esbarrar em mim e seguir seu caminho, sem causar nenhum impacto. Não participo da palavra, portanto não estou morando aqui por completo. É uma teoria maluca, impossível de se provar, mas eu até gosto dela.
- Qual a palavra de Nova York? – perguntou Giulio.
Pensei no assunto por um instante e me decidi.
- É um verbo, é claro. Eu acho que é Conquistar.
- Qual a palavra de Napóles? – perguntei a Giulio. Ele conhece bem o sul da Itália.
- Brigar – decide ele – Qual era a palavra da sua família quando você era pequena?
Essa era difícil. Eu estava tentando pensar em uma só palavra que, de alguma forma, conjugasse Frugal e Irreverente. Mas Giulio já havia passado à pergunta seguinte e mais óbvia:
- Qual a sua palavra?…”